Tuesday, November 6, 2012

Prólogo

Os gemidos atravessaram a parede e acordaram Scanoni. Não era a primeira vez. Novamente nada lhe parecia mais óbvio e necessário do que providenciar um bendito apartamento e parar de morar naquele hotel barato que, dada a praticidade propiciada pela sua localização nas franjas do centro da cidade, tinha virado um motelzinho aonde um casal podia ir a pé, sem quaisquer questionamentos. Começaria em algumas horas, a primeira semana de trabalho de fato de Scanoni como Investigador Chefe da 1ª Delegacia Seccional de Homicídios. Desde que tinha entrado na Polícia, fora designado para funções no interior. Trabalharia na capital pela primeira vez depois de quase uma década de carreira, aos trinta e cinco anos de idade. Na verdade, já tinha chegado ao Recife, sua cidade natal, desde a semana anterior àqueles gemidos alucinados no hotel. Escolheu não se hospedar na casa dos pais a fim de evitar o necessário sentimento de estorvo imanente a essas situações. Também garantiria o mínimo de privacidade para si. Escolheu um hotel baratinho, enquanto procurava cuidadosamente um lar. Foi tomar seu café da manhã no refeitório, comum a todos os hóspedes. Era um salão cheio de mesinhas de madeira cobertas com toalhas brancas, ora com dois, ora com quatro lugares, normalmente ocupadas por casais. Estava impecavelmente limpo, o que propiciava o transbordo de uma atmosfera leve no local. Aliás, essa leveza denunciava o que todo mundo ali tinha passado a noite fazendo. E nesse clima, Scanoni se lembrou de que não comia ninguém fazia mais de um mês. Que desgraça, hein leitor? As coisas que Scanoni teve que resolver nas semanas anteriores, quando seu nome começou a ser cogitado para assumir as funções de um dos cargos mais críticos da Polícia tinham ocupado o seu tempo de tal maneira que perdeu várias chances de afagar os corações das suas amantes e cultivar o apreço delas por si. Quando se deu conta, nem Celinha, uma paixão tão eterna quanto efêmera que ele mantinha desde a adolescência e durante as suas visitas ao Recife, estava lhe dando cabimento. Pois é: a fila anda, quem não dá assistência abre para a concorrência e todas essas cretinas frases que são ditas a quem vacila em tratar com o devido cuidado os seus amores estão valendo agora para você, Ivo Scanoni. Tratou de acabar rapidamente seu sanduíche de queijo coalho frito para sair do sufoco que lhe impunha aquela leveza. Pegou seu carro e partiu para a Delegacia. A distância entre o hotel e o local de trabalho não passava muito de três quilômetros, mas o trânsito era pesado em todo o complicado trajeto pelo centro do Recife, o que era suficiente para que o deslocamento durasse bem mais do que devia. A Primeira Delegacia Seccional de Homicídios situava-se no bairro do Recife, a que todos costumavam chamar de Recife Antigo. Antigo porque foi a parte da atual cidade que deu início ao seu povoamento lá por meados do século XVI, como região portuária de Olinda. O prédio que a abrigava era um casarão provavelmente secular de quatro pavimentos numa esquina da Avenida Rio Branco com alguma de suas ruas transversais. Esta Delegacia Seccional era responsável pelas atividades policiais relacionadas aos eventuais homicídios (tentados e consumados) ocorridos no centro do Recife, área que estava limitada ao norte pelo Rio Beberibe, ao sul pela Foz do Rio Pina, a oeste pela Avenida Agamenon Magalhães e a leste pelo Mar. Como Investigador Chefe de Homicídios, Scanoni era em última instância o responsável pela investigação de todos os crimes contra a vida que ocorriam dentro desses limites. Ele, na verdade, estava acima de quatro equipes de investigação, cada uma destas chefiada por um Investigador Tenente. Um dos seus principais papéis era o de distribuir as investigações dos homicídios entre essas equipes e naturalmente delegar responsabilidades aos Tenentes. Quando fosse o caso, ele também poderia assumir uma investigação formando outra equipe com alguns dos seus subordinados. Vinham sendo registrados uns sessenta ou setenta homicídios por ano no centro do Recife. A maior parte deles, relacionada a conflitos entre gangues de assaltantes ou traficantes de crack e outras drogas, por disputas por mercado ou mesmo entre os elementos de uma mesma gangue; uma parte menor relacionada a passionalidades e coisas similares e uma ínfima parte de homicídios misteriosos. Scanoni deixou seu carro numa transversal da Rio Branco e quando estava prestes a entrar no prédio foi abordado por um homem de barba e cabelo bagunçados, vestimentas surradas e ar sofrido. - Bom dia, Doutor Scanoni! Scanoni olhou o cidadão e ficou imaginando se já o conhecia. - Poderia me ceder um cigarro, por gentileza? Scanoni, intrigado, tirou o maço do bolso do blazer e puxou um cigarro. Então perguntou: - O senhor me conhece? - Ainda não, mas tive boas referências suas. Inclusive, sabia que fumava. O senhor vai ter oportunidade de ratificá-las. - Como é? – perguntou Scanoni, dando sinais de que já começava a se impacientar. - As suas boas referências. Desculpe-me a falta de polidez. Meu nome é Adamastor. Moro aqui na ilha. Até outra ocasião! Scanoni então seguiu e entrou no casarão. Cumprimentou o policial da recepção que fazia a segurança do local e rumou ao elevador. Primeira surpresa desagradável da sua era de Investigador Chefe da Primeira Delegacia Seccional de Homicídios: o elevador do prédio estava quebrado e ele teve que subir de escada. Saiu soltando palavrões contra responsáveis indefinidos. No percurso em aclive, cada degrau catalisava a maturação do seu mau humor. Ele ia ter que resolver logo aquela merda. E não só aquela. Ponderou bastante se deveria passar no primeiro andar e ter com os seus agora subordinados. De fato soaria pedante não fazer isso. Por outro lado, considerava altíssimo o risco de dar uma patada pública em alguém que fizesse qualquer comentário, fosse esse impertinente ou não. Isso soaria grosseiro. Tal qual Maquiavel nas suas singelas reflexões sobre o medo e o amor, nesse momento ele começou a fazer um cálculo. O que era pior: ser pedante ou ser grosseiro? Scanoni, entre o pedantismo e a grosseria, escolheu o primeiro. Ambas as escolhas implicariam em malefícios coletivos. Porém a segunda, além de atingir a coletividade, fatalmente seria direcionada a um indivíduo. Sendo assim, ser pedante era o que lhe restava. Mas não conseguiu ter sucesso na sua intenção. Quando abriu a porta que dava acesso ao gabinete do Investigador Chefe, começou uma gritaria. Na sequência uma salva de palmas. Parecia que toda a Seccional estava ali esperando Scanoni para saudá-lo. Havia até uma mesa cheia de docinhos e salgadinhos de festa, algumas garrafas de café e de refrigerante. Zezinha, a sua futura secretária, apresentada a ele na solenidade em que tomou posse do cargo, pediu a atenção de todos e reapresentou o Investigador Chefe. Muitos cumprimentos e votos de boas vindas lhe foram dados. Scanoni, inicialmente quase constrangido, acabou participando da festinha. Conheceu o Tenente Diogo Setembrino, trocou piadas cretinas com o Tenente Antônio de Jesus, tratou de assuntos culinários com a Tenente Marta Rincowisk, e marcou uma cerveja com o Tenente Armando Castro. Os dois últimos eram amigos de Scanoni desde a época da academia. Ainda conheceria os agentes de investigação e os administrativos. Passada uma hora de descontração, resolveu encerrar a patuscada com um discurso mequetrefe sobre a importância da atividade policial e coisas assim. No final do discurso disse que entraria no seu gabinete para arrumar algumas coisas e que voltaria em cerca de meia hora. Quando voltasse, não queria ver nenhum dos seus subordinados tomando cafezinho ou comendo docinhos. Ainda avisou aos seus Tenentes que eles estavam convocados para uma reunião no início da tarde. Explicaria o novo modus operandi e daria outras providências. Apresentaria alguns números e os seus eventuais desgostos com eles, indicaria a sua intenção de comer o fígado dos responsáveis se eles continuassem sendo incompetentes, elogiaria algumas boas práticas, ouviria e avaliaria as sugestões deles para as melhorias e tomaria decisões, se fosse o caso. Desceu em meia hora como tinha prometido e não havia nenhum sinal de bagunça. Começava assim a era Scanoni na Chefia da Primeira Delegacia Seccional de Homicídios. Aurora vermelha O telefone tocou na sala de Scanoni. Era Zezinha, a secretária. - Eu tinha me esquecido de dizer mais cedo, porque tinha gente na sala, mas ligaram duma imobiliária - E disseram o que? Perguntou Scanoni. - Deixaram um número pra você ligar de volta. Anote aí. Scanoni anotou o número e ligou para a imobiliária. Marcou com a corretora para ir dar uma olhada em um apartamento pela manhã do dia seguinte, um sábado. Sentiu-se aliviado. Tinha passado a semana ouvindo gritos e gemidos luxuriantes no hotel em que estava hospedado durante a noite e até de manhã cedo. O martírio ia acabar. E não só esse; Scanoni continuava sem comer ninguém e tinha começado a flertar com a corretora, que era alguém bem interessante para essa finalidade. O encontro da manhã do sábado poderia lhe garantir um lar e uma mulher. Seria o ponto crítico daquele final de semana. O relógio pregado na parede já marcava o fim da tarde. A primeira semana de Scanoni estava acabando. As gangues de traficantes continuavam cometendo seus homicídios de rotina. Na semana em questão tinha havido três e uma tentativa. Embora não fosse algo inédito, também não era lá muito normal que acontecessem quatro crimes contra a vida (três letais) em uma semana, segundo a própria avaliação da sua equipe. O primeiro homicídio acontecera à luz do dia na Avenida Dantas Barreto, num bar desgraçado freqüentado por desocupados e assaltantes insignificantes. E desencadeara os outros fatos. Seria fácil de resolver. Embora nem Scanoni, nem os tenentes diretamente encarregados soubessem prontamente. A primeira vítima fatal (segunda-feira) fora um tal de Tenebroso. Esse cidadão era dono de pontos de venda de drogas nos Coelhos (bairro que ocupa boa parte da margem esquerda do Capibaribe quando este corta o centro). Delinquentes desse tipo costumavam sair muito pouco dos seus redutos. Quando saíam, a probabilidade de ocorrer um homicídio era razoavelmente alta. Por volta das quatro da tarde, Tenebroso estava tomando cachaça e comendo uma maravilhosa, escura e fedorenta passarinha com um dos seus prováveis comparsas na barraca do Jeová, perto do último prédio do camelódromo na Dantas Barreto. Dois elementos em uma motocicleta chegaram. Um deles desceu da moto e sem tirar o capacete, alvejou Tenebroso com projéteis calibre vinte e dois. Um tiro no rosto e outro no pescoço. Tenebroso ficou mais tenebroso ainda porque no rosto, o disparo atingira em cheio o seu nariz. Morreu na hora. Outro projétil acabou acertando a gaiola onde morava o curió de Jeová, permitindo que a ave se evadisse. O comparsa tinha ido ao banheiro e quando voltou, os motoqueiros já tinham sumido. Ele ainda deu dois tiros a esmo que por sorte não atingiram nenhum cidadão, nem qualquer outro animal inocente e foi embora do local. Na madrugada da quarta-feira, a polícia foi chamada por populares a uma casa nos Coelhos. Havia dois cadáveres de traficantes da gangue de Cotel. Essa alcunha bizarra vinha de COTEL; a sigla do Centro de Observação e Triagem Criminológica Professor Everardo Luna, um estabelecimento prisional de onde os criminosos presos são distribuídos para outros estabelecimentos do mesmo tipo. Essa alcunha, como não poderia deixar de ser, deixava flagrante que o dono da boca frequentara bastante o lugar. Os locais relataram aos policiais presentes que se tratava dos cadáveres de Preto e Marcinho. Esses dois eram os administradores da boca de fumo que funcionava na casa onde ocorreram os seus homicídios. Uma coisa era notável aos policiais chefiados pelo Tenente Castro, que já era o responsável pela investigação do homicídio de Tenebroso. Uma motocicleta idêntica às descrições de testemunhas do crime estava na frente da casa. Preto e Marcinho tinham matado Tenebroso e ao que tudo podia indicar, alguém tinha descoberto isso antes da polícia e fora ajustar as contas. As gangues de Cotel e Tenebroso disputavam o controle do mercado de drogas nos Coelhos. As bocas principais de cada uma das gangues ficavam a uma distância razoável umas da outras, atendendo a demandas diferenciadas geograficamente. O suficiente para que não fosse necessário o recurso à violência para a solução de problemas comerciais. Normalmente, quando havia algum confronto entre seus elementos, a motivação não era econômica. Algum adultério, algum xingamento a familiares e até alguma dívida pessoal desligada da atividade comercial que eles exerciam. Mesmo quando morria alguém como resultado desses conflitos, tudo continuava sob controle. A situação era um tanto estranha. Os policiais não acreditavam muito na hipótese de Cotel ter mandado matar Tenebroso. A relação dos dois conseguia se estabilizar no nível da concorrência, sem nunca chegar o da inimizade franca. Como sugeriam informações do pessoal do Departamento Metropolitano de Narcóticos. Quando o Tenente Castro relatou a situação a Scanoni, os dois chegaram à conclusão de que o provável comparsa desconhecido que estava com Tenebroso no bar tinha que ser identificado. Na sexta-feira pela manhã, um sujeito tinha descarregado os oito projéteis de um trinta e oito em Magnata, o dono de uma boca no Coque. Esse último estava na beira dum campo de futebol observando uma pelada. Por pura sorte, Magnata só fora atingido por dois disparos. Um de raspão do lado esquerdo da barriga e outro no joelho esquerdo. Doeu, mas ia dar pra sobreviver. O atirador após esvaziar o seu revólver montou numa moto, mas logo depois levou uma queda. Saiu então correndo em direção à Agamenon Magalhães, mas foi interceptado por policiais da Preventiva e levado à Seccional do DMH. Lá relatou que tinha acabado de chegar ao Recife vindo de Xexéu, cidade da Mata Sul, e estava morando com seu primo Léo nos Coelhos. A polícia conhecia um Léo nos Coelhos. Era gerente de uma das bocas de Tenebroso. Castro, que estava dirigindo o interrogatório do atirador, imaginou imediatamente que só podia se tratar do mandante do homicídio de Magnata, o que foi confirmado. Só que a linha que ele ia seguir era outra. Cotel estava sem dar o ar da própria graça fazia um bom tempo. Alguns diziam que ele tinha ido embora da cidade, ou pelo menos dos Coelhos. Os boatos eram de que ele tinha arranjado uma namorada lá pelas bandas de Moreno e que tinha desaparecido deixando o controle da empresa para Preto e Marcinho. A situação era a de que dois chefes de gangue estavam fora de ação e outro escapara por sorte de ser morto a mando de um gerente da gangue cujo líder fora o primeiro vitimado fatalmente. Bastou um pouco de aperto para que Nildo (o atirador) confirmasse isso. Tudo claro. Léo planejou controlar o comércio de drogas dos dois lados do rio. Mandou Marcinho e Preto matarem Tenebroso. Conseguiu a confiança dos assassinos para chegar tranquilamente à casa deles e liquidá-los. E mandou um primo incompetente matar Magnata. Só que ele não contava com a tripla inépcia do cidadão. Pontos ligados, bastava pegá-lo. E ainda em tempo de flagrante delito pela tentativa de homicídio de Magnata. Coisa facílima, na medida em que Nildo acabou revelando o lugar onde Léo estava em troca uma passagem só de ida ao Sertão. E para finalizar, quando Léo foi preso, a polícia achou na casa dele uma pistola calibre vinte e dois. Mesmo calibre dos projéteis que tinham deixado Tenebroso mais feio. Apesar do sucesso na elucidação do caso, uma coisa era aparentemente preocupante. Por causa do vazio deixado pelo desaparecimento dos principais traficantes da área, provavelmente haveria uma pequena guerra pelo restabelecimento do controle da atividade econômica. Marta Rincowisk entrou na sala. Perto dos quarenta, estava levemente acima do peso, o que deixava seu rosto bem arredondado e lhe dava o aspecto de uma daquelas professoras de primário. Seus cabelos eram pretos e bem lisos. Cheirava a lavanda e sabonete. Rincowisk também chegava para chefiar o plantão da sexta. Relatou que finalizara o inquérito do homicídio de uma mulher e já ia encaminhá-lo ao Ministério Público. - Foi o ex-marido, né? - Isso. Inconformismo pós-divórcio. - Pediu a prisão, né? - Ele já tá preso. Flagrante. Scanoni ainda ficaria até mais ou menos umas dezenove horas. Tinha uns documentos para despachar e queria dar um tempo para que o trânsito ficasse um pouco mais leve. Depois ele não iria para o hotel. Ia ao Aritana, um bar no bairro do Carmo em Olinda, degustar os maravilhosos caldinhos de feijão e o estupendo arrumadinho de carne de charque do estabelecimento. O legendário Aritana funcionava havia mais de trinta anos no mesmo lugar. Scanoni era freqüentador do local. Passou a adolescência tardia bebendo cerveja e tomando caldinho de feijão ali. E sempre que vinha ao Recife não perdia a chance de aparecer por lá. Quando já estava pronto para sair, Castro chegou à sua sala. - E ae Scanoni? E essa cerveja introdutória do final de semana? Vamo nessa? A gente aproveita e comemora o meu ótimo trabalho. - Hehehe. Porra, já tava indo no Aritana. Vamo lá? - Ô rapá! Melhor lugar não há. É bom que é no caminho da minha casa – falou quase comemorando, Castro. Ficaram até perto da meia-noite. Scanoni tinha assuntos a resolver pela manhã. Celinha usava uma blusinha cinza, que mal conseguia segurar os seus belos peitos e uma calcinha branca de algodão com florzinhas cor-de-rosa bem claro. Exalava à distância um delicioso cheiro adocicado. Adentrou o gabinete. Olhava Scanoni nos olhos enquanto ia ao encontro dele. Alcançou-o. Ele pensou em perguntar como a tinham deixado entrar vestida daquele jeito, mas ela tapou sua boca com a mão. Perguntou por que ele não tinha lhe telefonado e sentou-se em seu colo de pernas abertas de frente para ele. A maciez da coxa de Celinha era extremamente confortante. Scanoni preparou-se para beijá-la. Quando encostou a sua boca na dela, não sentiu nada agradável: as suas arcadas dentárias começaram a se chocar. E o barulho disso era idêntico ao som estridente de uma campainha de telefone. O beijo de Celinha tinha se tornado incompreensivelmente incômodo e ele parou. Ainda assim, o barulho estridente do choque se repetiu. Celinha não estava mais no seu colo lhe aplicando uma maravilhosa chave de pernas. Mais barulho estridente. Scanoni se deu conta que o cheiro adocicado não vinha de Celinha. O conforto também não era de coxa alguma. Percebeu também que o barulho estridente não tinha vindo do desagradável choque dos seus dentes com os dela. Não havia cheiro. As peles nunca se tocaram. E o pior foi perceber que de um sonho erótico o que acaba restando é apenas a histeria de um telefone na madrugada. Eis uma observação duramente materialista. Scanoni atendeu o celular ainda sonolento. A voz da mulher que estava do outro lado lhe lembrava do cheiro quase infantil de lavanda. Demorou alguns segundos para perceber que era a Tenente Rincowisk. - Scanoni, tá ouvindo? - Tou, tou. Que horas são? - Quatro e meia. Desculpa te acordar, mas tou com um problema. Meu filho acabou de ter uma crise de apendicite e vai fazer uma cirurgia. Eu já to no caminho do hospital. Pra piorar a gente recebeu quase no mesmo tempo a notícia de dois homicídios. Um naqueles prédios da Rua da Aurora e outro perto da Ponte do Limoeiro. To precisando de você na delegacia. O plantão tá sem investigador graduado. - Como assim? E os outros tenentes? Marta Rincowisk explicou que tinha ligado para Jesus e para Setembrino, mas o primeiro não atendeu e o último estava fora do Estado. Ligou para Castro, mas ele estava numa festa e já tinha bebido bastante. - Certo. Você já mandou alguém pra alguma cena? - Mandei dois agentes pra cada. - Certo. Diga aos da Aurora que me esperem. Eu vou direto pra lá. Qual o prédio? Marta deu o endereço e desligou o telefone. Scanoni lavou o rosto, pôs uma roupa adequada e entrou no carro. Acendeu um cigarro e seguiu o caminho até a charmosa Rua da Aurora. Às cinco e meia da manhã naquela época do ano, nada seria mais poético que estar naquela rua e acompanhar a aurora com os seus intensos raios solares sendo refletidos pelo espelho d’água do estuário do Capibaribe. Mas o evento que Scanoni estava indo acompanhar era uma cena de homicídio. Evento que se manifestava quase todos os dias em Recife, tal como o nascer do Sol, já que há dias em que as nuvens atrapalham tudo. Com o trajeto sem carros propiciado pela madrugada, Scanoni chegou em pouco mais de dez minutos ao seu destino. Éber e Cássio, os agentes de investigação da equipe do plantão daquele dia, estavam na frente do prédio à sua espera. Havia um carro da Preventiva da Primeira Delegacia Seccional de Polícia de Território com as luzes das sirenes acesas. Dois policiais uniformizados faziam uma barreira só permitindo a entrada no prédio de eventuais moradores. Havia uma confusão notável para o horário. Scanoni fez contato com os seus subordinados. - E aí, o que temos? - A gente chegou quase agora também. Acho melhor ir falar com o pessoal da Preventiva. – Falou Cássio. Os policiais da Preventiva, uma moça com cara de adolescente, olhos bem escuros e lábios quase inexistentes e um rapaz atarracado, relataram aos investigadores que havia um homem adulto entre quarenta e cinqüenta anos de idade, morto ao lado da cama no apartamento do sétimo andar. Aparentemente com ferimentos na região dianteira do tórax. Só constataram o óbito e deixaram a cena quase intacta. Tinham obedecido às recomendações do pessoal de homicídios para esperar a equipe de investigação que ia avaliar a cena de crime. Ainda disseram que tinham isolado o apartamento inteiro e que um colega estava lá com os peritos da Polícia Científica. - Quem encontrou o corpo? - Foi um vizinho. Ele disse que viu a porta de trás aberta, achou estranho e entrou. Depois ligou pra polícia. É aquele ali de óculos – Falou a moça, apontando um grupo. Depois de falar palavras de cumprimento pelo bom trabalho ao pessoal da Preventiva, Scanoni ordenou que Cássio e Éber fossem ao sétimo andar para a avaliação da cena. Explicou aos agentes que ia conversar com o vizinho. Depois subiria. - Acho que tem duas entradas no apartamento. Cada um vai por uma. Prestem atenção no lugar inteiro. Scanoni andou na direção do vizinho. Olhou pro céu e notou um mosaico de tonalidades que iam do roxo ao rosado. Lá vinha o Sol. Aproximou-se da pequena aglomeração e falou: - Bom dia a todos. Gostaria de falar com o senhor. - Dirigiu-se ao vizinho que encontrou o corpo – Como é o seu nome? - Norberto. Quem é você? - Investigador Scanoni. Homicídios. Norberto aparentava está próximo aos quarenta anos de idade. Usava óculos escuros de armação grossa e lentes retangulares. Além disso, usava uma camiseta amarela e um calção minúsculo azul. Completava aquela indumentária, que lhe dava um ar que ia do grotesco ao ridículo a cada mínimo movimento, um tênis espalhafatoso, cujo calcanhar tinha uma coisa parecida com um amortecedor. - Me conte como encontrou o corpo. - Eu entrei no apartamento, fui até o quarto e vi ele morto. Pelo menos achei isso porque ele tava em cima de uma poça de sangue. - Você tocou no corpo? - Não. Não entrei no quarto. Da porta já vi a cena e voltei pra minha casa pra chamar a polícia. - Por que você entrou? - Vi a porta aberta, achei estranho e entrei. - Qual foi a hora disso? - Pouco depois das quatro. - Hum. E o que mais? - Não entendi. - Você costuma andar pelo prédio de madrugada? Norberto olhou Scanoni com uma leve expressão de desconforto e respondeu que não. Completou dizendo que era maratonista amador e no momento estava treinando. O treinamento consistia subir a escadaria até o vigésimo andar e descer. Depois correria na rua. Scanoni ainda perguntou se Norberto era amigo da vítima. Esse respondeu que eram apenas vizinhos e se cumprimentavam quando se esbarravam pelo prédio. - Ainda assim você se sentiu à vontade pra entrar no apartamento dele? Norberto mencionou tirar os óculos escuros, mas desistiu. Disse que não sabia por que tinha entrado. - A porta tava aberta. Aí eu entrei. Só isso! Scanoni deu-se por satisfeito, depois de perguntar sobre o seu apartamento e anotar os seus contatos, dispensou Norberto e rumou ao sétimo andar. Entrou pela porta traseira do apartamento, passou pela área de serviço e chegou à cozinha. Havia alguns pratos sujos e duas garrafas pequenas de cerveja na pia. Sobre o fogão, uma panela fechada. Sobre uma mesa, havia uma caçamba de gelo branca. Scanoni percebeu um feixe de luz e escutou uma voz. Seguiu na direção de onde vinham. Chegou a um quarto, onde peritos estavam trabalhando com todo cuidado, pois havia sangue espalhado. Depois de ter superficialmente notado os pontos em vermelho, viu o corpo vestindo apenas cueca, estendido de bruços no chão ao lado esquerdo da cama, tomando-se a cabeceira do objeto como referencial. Estava envolto em uma grande quantidade de sangue, concentrada na região próxima ao seu tórax. Um perito aproximou-se do Investigador Chefe e entregou-lhe um saco plástico transparente contendo uma carteira de identidade. A vítima se chamava Rafael Antunes e tinha quarenta e quatro anos de idade. Scanoni então ouviu a voz de Éber e a seguiu. Encontrou os dois agentes na varanda, fumando. Acendeu um cigarro e os três ficaram em silêncio até o último trago. - Tem sangue pra caralho no quarto. Alguma coisa? – perguntou Scanoni. - A arma foi uma faca de cozinha. – respondeu Cássio. - Tá no quarto? - Não. Vamo na cozinha que eu mostro. No cômodo, o agente apontou para uma barra preta de imã pregada na parede, próxima à torneira da pia. Havia quatro facas presas pelas lâminas, provavelmente de um conjunto, dado que iam crescendo de tamanho, enquanto a altura da sua posição aumentava. Notava-se uma lacuna na parte em que deveria estar a quarta faca. Scanoni disse a Cássio que solicitasse à perícia a execução de os procedimentos forenses em todos os cômodos do imóvel. O agente foi ao quarto. Scanoni pegou um guardanapo e abriu a tampa da panela sobre o fogão. Dentro havia uma paella, tendo ele descoberto isso pelo mínimo e marcante aroma que a comida ainda exalava. Pensou seriamente na possibilidade de acender o fogo, requentar e fazer uma deliciosa refeição. Conteve-se quando se tocou de que isso alteraria a cena do crime. Fechou o utensílio. Olhou em direção à mesa e lá estava a caçamba de gelo. Examinou-a sem tocar e percebeu que ela tinha doze compartimentos. Desses, seis continham água líquida e seis estavam vazios. Não havia copos na pia. Dirigiu-se ao quarto e conversou com um dos peritos assuntos de praxe. Aos seus subordinados, comunicou que a Tenente Rincowisk deveria voltar à seccional pela manhã, mas ele ia ficar com o caso. Voltou ao hotel e ainda dormiu umas duas horas. Logo depois de acordar, Scanoni confirmou o encontro com Catarina, aquela que supostamente guardava os dois almejados prêmios daquele dia. Marcaram em frente ao edifício onde ficava o apartamento que ele ia visitar naquele dia na Rua das Pernambucanas, no agradável bairro das Graças. Em alguns minutos Scanoni chegou e Catarina já estava à espera. O investigador dera-lhe de idade não mais que vinte e cinco. Tinha os olhos e cabelos num tom preto, que ficava mais extremo quando se contrastava com a brancura da sua pele. Vestia uma calça jeans e uma camisa branca comum que tentavam esconder suas curvas, mas não conseguiam. Quando Scanoni se aproximou, cumprimentaram-se. Catarina olhou fundo nos olhos dele, deixando-o levemente tímido. Mas, lembrando-se dos objetivos daquele dia, superou a timidez, olhou-a de volta com toda a precisão possível e ainda sentiu seu cheiro. Adorável, como todo o conjunto. Quando chegaram à portaria tiveram uma desagradável surpresa. - Eita! Ele não deixou a chave não. – revelou, com um ar basbaque, o porteiro. - Como não? Eu combinei isso com ele. – falou Catarina. Ela pegou o celular e fez uma ligação ao dono do apartamento. Não foi atendida. Repetiu o procedimento, mas obtivera o mesmo resultado. - Sacanagem! Exclamou Catarina, irritada. Scanoni olhava aquilo tudo passivamente, já convencido de que pelo menos um dos seus dois grandes problemas não seria resolvido naquele dia. Decidiu tentar resolver o segundo. - Quer almoçar comigo? – soltou quase que de supetão. Catarina deu um sorriso e arregalou os olhos. Logo depois mudou a expressão de surpresa para a de lamentação. Não podia. Tinha um vôo marcado para antes do meio-dia. Despediram-se então, dessa vez, trocando beijos nas faces. Novamente o cheiro de Catarina invadiu as narinas do nosso protagonista. Seguiu pelo nervo olfativo e incentivou seu cérebro a formar as imagens mais luxuriantes que podia conceber. Por breves momentos, Scanoni sentiu-se em êxtase. Logo depois, percebeu a moça indo embora. Começou a maldizer com toda a veemência o dono daquele apartamento. Pois é, caro leitor. Uma situação dessas faz qualquer homem perder sua capacidade de executar simples cálculos. Scanoni não conseguiria nada parecido com o segundo prêmio de Catarina naquele dia e a culpa certamente não seria do locatário. Lembremos que ela tinha um vôo marcado. Isso tornaria o encontro entre eles bem curto. E as possibilidades de sucesso em termos do referido prêmio estariam necessariamente dirimidas. Na segunda pela manhã, Scanoni chegou à Seccional e convocou Cássio e Éber para uma reunião. Comunicou aos agentes que eles iam começar a trabalhar no caso da Rua da Aurora. - Eu quero que vocês vão lá no edifício. Basicamente tentem conversar com mais algumas pessoas. Vizinhos, porteiros, gente que possa dar informações sobre a vítima, sobre o dia do homicídio... Vocês sabem. Por enquanto, só nós três mesmo. Se for aumentando o volume de trabalho, eu chamo mais gente. Eu vou entrar em contato com a perícia pra saber a quantas andam os laudos. Só pra dar uma pressionada. Dispensou os subordinados e pediu que Zezinha fizesse ligações ao Instituto de Medicina Legal, ao Instituto de Criminalística e ao Instituto de Identificação Tavares Buril. Deveria procurar os responsáveis de cada um dos órgãos da Polícia Científica pela cena do homicídio que investigava e depois lhe passasse os nomes e os contatos. Nos primeiro, obteve informações de que os trabalhos estavam apenas nas etapas iniciais e deviam ser finalizados apenas no outro dia. Scanoni então ligou ao Tavares Buril. De lá recebeu a informação de que os procedimentos também estavam sendo iniciados, mas que eles já poderiam liberar alguns objetos que estavam no quarto e tinham sido analisados. Scanoni depois ligou para o IC. Informaram-lhe que já poderiam enviar as fotografias da cena. Deu seu endereço eletrônico ao perito. Algum tempo depois, chegariam à sua caixa postal eletrônica uma mensagem contendo várias fotografias digitalizadas. Começou a baixá-las e o computador lhe avisou que o tempo do processo ia ser longo. Resolveu ir ao térreo observar o movimento na Avenida Rio Branco. Avistou Adamastor que, do outro lado da rua, fez-lhe um cumprimento. Scanoni educadamente, respondeu. Intrigado com aquela figura de aspecto decrépito, porém altiva falou com Armando Castro sobre o homem. -Quem é aquele mendigo que sempre tá pelas redondezas? - Adamastor? - Isso. - Não sei bem, mas tem uns boatos aí que dizem que ele não é realmente mendigo. Mora na rua, mas tem casa. Eu mesmo já vi ele em fila de banco pra tirar dinheiro. E outra vez passeando com uma mulher bem bonita, que acho que é a filha dele. De vez em quando ele fica declamando uns versos no meio da rua. - É? É poeta, o desgraçado? - Acho que é. E pelo pouco que eu já ouvi tem até qualidade. Se é que eu tenho alguma autoridade pra falar de poesia, né? Já ouvi falar que ele endoidou depois que ficou viúvo. Abandonou tudo e foi morar na rua. De vez em quando ele desaparece e depois volta. Acho que vai em casa. - Sei. Já deu algum trabalho por aqui? - Mais ou menos. Ele vive arranjando briga com os flanelinhas daqui do bairro. Às vezes sai até na mão. Teve uma vez que quebrou o braço de um que tava ameaçando uma moça com um estilete. - Foi mesmo? - Hum rum. No meio da tarde, Scanoni começou a examinar as fotografias do quarto. As imagens não diferiam muito do que ficara na sua memória. Justo porque faziam o investigador se lembrar do cheiro de sangue. O quarto continha uma cama, um guarda-roupa embutido, uma estante de dois níveis pregada na parede e um criado mudo do lado contrário ao do corpo. Havia uma grande mancha de sangue sobre a cama, o que indicava que os golpes tinham sido desferidos quando a vítima ainda a estava usando. Sobre as plataformas da estante, alguns livros, bugigangas e três porta-retratos. Sobre o criado mudo, Scanoni percebeu um pedaço de pano branco dobrado. Dentre os objetos enviados pelo Tavares Buril, estava o pedaço de pano. Na verdade era uma toalha de rosto. No saco plástico que embalava a toalha, era possível notar vestígios de vapor condensado. Quando Scanoni o abriu, sentiu um odor azedo de roupa mal enxuta. Tocou na toalha e notou que ela ainda conservava alguma umidade. Nos porta-retratos havia fotografias de Rafael, acompanhado de um rapaz mais jovem. Scanoni não reconheceu as paisagens de duas, mas sobre uma teve certeza de que tinha sido tirada em Veneza. Nesse momento, entraram Éber e Cássio com caras de boas novas. Éber iniciou a conversa. - Falei com alguns vizinhos, mas acho que só dois depoimentos é que foram mais proveitosos, mas entraram em algumas contradições. O primeiro foi de uma vizinha. A do apartamento de baixo. Ela disse logo que o tal Rafael era bicha. Que vivia recebendo visita de uns garotos de programa. E tinha certeza de que algum desses michês tinha matado o cara. Era uma senhora com cara de beata fofoqueira. - E o outro? - O outro depoimento foi de uma mulher, que mora com os filhos. Ela confirmou que Rafael era gay, mas disse que ele não escondia isso de ninguém e até uns meses atrás tinha um relacionamento estável com um boy. Ela não era amiga da vítima, mas disse que tinham boas relações como vizinhos e quando eu disse que a outra vizinha falou dos garotos de programa, ela disse que duvidava muito. Do pouco que conhecia, sabia que Rafael não era propriamente promíscuo. Ela mora justamente no apartamento de cima e disse que um dos filhos dela contou que por volta da meia noite da sexta, escutou uma gritaria do quarto dele, que é exatamente em cima do quarto onde aconteceu o homicídio. O menino tava na escola, quando chegasse ela falaria de novo com ele. E qualquer coisa, me ligava. - E tu botou mais fé em quem? - Na mãe. O nome dela é Helena. A velha tava com a clara intenção de esculhambar a vítima, falar da decadência moral da civilização e essas merdas. Mas pelo depoimento dela, fiz perguntas pra vizinha de cima. E essa aí deu até o primeiro nome do namorado ou ex-namorado. - Que nome? - Você não vai gostar de saber. – falou Éber soltando uma risadinha. Scanoni fez uma cara de psicopata que assustou o seu agente. Esse entendeu e deu a resposta. - Ivo. Scanoni fez o mais genuíno olhar de ódio. O temor de Éber foi ampliado em relação ao que sentira quando se estampou na cara do nosso protagonista, aquela feição de psicopata. O agente se sentiu desrespeitando toda a liturgia hierárquica típica das organizações policiais. Porém Scanoni, que não era propriamente um defensor dessas tradições, acabou iniciando um sincero sorriso resignado. Ambos os agentes seguiram o seu superior e em alguns segundos, os três estavam em gargalhadas. Depois da descontração, voltaram ao trabalho. Cássio começou o seu relato. - Falei com o porteiro que tava na hora do homicídio. Ele disse uma coisa importante. - O que? - Ele garantiu que ninguém saiu do prédio depois da meia-noite. Algumas pessoas entraram, mas ele disse que tinha cem por cento de certeza de que todo mundo era morador. A gente fez até uma lista. - E o prédio só tem uma entrada? - Não. Mas só se entra no prédio pela portaria dele ou pela garagem. E o porteiro controla os dois portões. - Hum. Interessante. A considerar que se escutou uma discussão por volta desse horário no apartamento da vítima, se isso for totalmente verdadeiro, o autor foi algum vizinho ou alguém que tava no prédio. Isso faria parecer que a gente já chegou a algum lugar, mas eu discordo fortemente. O prédio tem vinte apartamentos, cada um em um andar... E antes da meia noite, o porteiro disse alguma coisa sobre quem entrou? - Ele pegou no trabalho às vinte horas. Nesse período, algumas pessoas entraram, mas ninguém propriamente estranho. Ah, Rafael chegou em casa por volta das vinte e duas. E ninguém procurou ele depois. -Hum. Dá pra acreditar nele? - Acho que dá. O nome dele é Juvêncio. Um senhor já. Pareceu bem insuspeito. E a gente também soube que o tal Ricardo era empresário. Dono de um restaurante que fica ali pelo Espinheiro. Mediterrâneo, o nome. - Tá certo. Vão nesse restaurante e façam perguntas. Outra coisa. Achem esse tal de Ivo. E amanhã, aqui na minha sala pra passar o relatório por volta das onze. Compreendido? Os agentes balançaram a cabeça afirmando e se retiraram. Scanoni ficaria até as dezenove. Novamente para evitar o grosso do horário de pico. Resolveu comer algo pela redondeza para passar o tempo. A oferta de comida era exígua naquele horário. Comeu alguma porcaria indigna de ser descrita nessas linhas. Um tanto triste, foi embora ao seu hotel. Celinha entrou novamente pela porta do gabinete de Scanoni. Vestia um shortinho de algodão e a mesma camiseta minúscula. O cheiro que exalava era adocicado. Ela foi se aproximando e ao alcançá-lo sentou-se no seu colo de frente para ele. Perguntou por que não tinha lhe telefonado. Ele novamente teve a cretina idéia de perguntar como a tinham deixado entrar vestida daquele jeito. Desistiu em tempo. Sentiu a maciez da coxa de Celinha. Avançou para beijá-la e o beijo foi intenso. Da boca, Scanoni partiu para o pescoço. Celinha pegou a mão dele e a pôs sobre um de seus seios. Manipulando todo aquele maravilhoso volume, ele aumentou a firmeza da pegada. Quando fez isso, ouviu um estrondoso, fanho e contínuo ruído. Insistiu. Novamente o ruído, só que mais contínuo ainda. De repente não viu mais Celinha no seu colo. Adquiriu a clara consciência de que participara de uma cena como aquela antes. E o pior de tudo foi perceber que de um sonho erótico o que acaba restando é apenas uma buzina fanha no meio da madrugada. Eis outra observação duramente materialista. No outro dia já na Seccional, Scanoni passou a manhã dando patadas aos seus subordinados. A primeira vítima fora Zezinha, quando lhe comunicou de uma circular do Departamento Metropolitano de Homicídios que o convocava para uma solenidade de entrega de novas viaturas à polícia. - Eu não vou pra porra nenhuma! E se você falar nisso de novo, quem vai é você! – esbravejou. O leitor há de concordar comigo sobre o quão impertinente era a grosseria de Scanoni, já que não se mata o arauto por causa da má notícia. A segunda vítima foi o tenente Diogo Setembrino. Ele entrou na sala de Scanoni avisando que precisaria de alguns agentes de outro tenente, pois não queria ir sozinho fazer uma diligência, e os seus estavam em expediente externo. Scanoni indagou o motivo e ele disse que o lugar era perigoso e que tinha medo até de ser assaltado. - Então enfia o distintivo no cu e pede exoneração, porra! Que tipo de autoridade tu é? Agente do IBAMA? Que o leitor tente relevar esse comportamento irascível por parte do nosso amigo Scanoni. Ele não tem tido sonhos muito tranquilos. No meio da tarde daquele dia, ele recebeu uma ligação no seu celular, que poderia torna-lo um ser humano bem mais tratável. Era Catarina. A moça diria que não ia estar em Recife até a sexta-feira e não poderia, nos dias sequentes, ajudá-lo. Um funcionário da corretora ia entrar em contato com ele para combinarem visitas a outros apartamentos. Scanoni teve duas reações. A primeira era de decepção. A outra de felicidade (eis onde residiu a minha esperança). Afinal Catarina demonstrara razoável preocupação com ele. Se a coisa fosse tão impessoal, certamente ela não ligaria. - Espero que eu não goste de nada até sexta. – Muito preciso, Scanoni! Catarina riu e mandou um “até sexta, então. Beijos” Logo depois, entraram Éber e Cássio. O primeiro foi falando: - Sobre o rapaz das fotos, o tal Ivo que não é Scanoni. – Deu uma risadinha cretina e Scanoni o olhou de volta. Encarou-o com aquela feição homicida e apontou-lhe o dedo indicador em riste. Só não começou a esculhambar o subordinado porque pensou no suposto avanço que obtivera com Catarina. Ainda falou: - Hoje não é dia de tirar onda da minha cara. Continua. - Tudo bem, tudo bem. Como eu ia dizendo, a gente pegou o contato do rapaz das fotos. Ele trabalhou no restaurante da vítima. Pediu demissão faz uns meses pra trabalhar em outro. Os funcionários do local confirmaram que os dois tiveram um caso. Mas que sempre foi tudo aparentemente tranquilo entre os dois. - Hum. Que mais? - Disseram que Rafael não é dono sozinho do restaurante. Ele é sócio da irmã. Ela que tá tocando o negócio. Ela não tava no momento, mas todos confirmaram que ela passou a noite da sexta no restaurante. A gente pegou o contato dela também. - Certo. Já falaram com alguém? - Não. Liguei pra irmã e ela não atendeu. Pro rapaz não tentamos ainda. - Eu ligo agora. Disca essa porra aí. - Quem é? - Falo com Ivo Andaluz? - Si. – o rapaz tinha um sotaque hispânico. Quem fala? - Aqui é o investigador Scanoni. Homicídios. Vamo direto ao assunto. Onde você tava na sexta por volta da meia-noite? - No trabarro. – falou o rapaz meio atarantado. - Tem como provar isso? - Si, si. Muita rente estaba comigo. Os funcionários do restaurante onde trabarro. Alguns clientes. - Você teve um relacionamento com Rafael Antunes não foi? Por que terminou? - Me constranre um poco falar disso, pero fundamentalmente el me disse que estava em iniciando outro relacionamento. - Hum, entendo você sabe mais sobre isso. - Non. A única coisa que el me disse foi que tinha quer manter secreto, porque era com uma persona casada. Scanoni agradeceu e recomendou que o seu xará entrasse em contato, caso se lembrasse de algo. Debateu a nova situação com os seus agentes e enfatizou que os vizinhos de Rafael ainda tinham muito a dizer. Éber e Cássio deveriam voltar e fazer mais perguntas, tentando principalmente identificar o outro lado do novo relacionamento da vítima. Dispensou ambos e desceu para fumar um cigarro. Quando ia se aproximando da saída da seccional, escutou um emaranhado de vozes, aparentemente em conflito. Ao sair, viu Adamastor sendo segurado por populares. Viu outro homem, que não conhecia, sendo segurado por outros. Adamastor sangrava pelo supercílio e o segundo homem tinha um hematoma no olho direito que quase o deixava fechado. Em vez de usar a sua autoridade para acabar definitivamente com a briga, Scanoni ficou observando os dois. Até que chegou o Tenente Antônio de Jesus e acalmou os contendores. “Eita, ele aproveita e diz pra cada um que se deve dar a outra face”. Scanoni elaborou esse chiste fabuloso e soltou uma risadinha. Em alguns instantes, uma senhora chegou com um paninho branco e o entregou a Adamastor. O investigador-chefe então acendeu um cigarro e o fumou com a calma dos sábios. No caminho de volta a sua sala, Zezinha lhe entregou um envelope, sem lhe dirigir a palavra e com uma cara de desdém. Scanoni, cônscio do motivo do desprezo, agradeceu-lhe e entrou no seu gabinete. O envelope tinha sido enviado pelo IML. Era o laudo tanatoscópico de Rafael Antunes. Scanoni o abriu e procurou o nome do legista responsável. Fez uma ligação ao Instituto e procurou o Doutor Casanova. - Ele já largou. Só com ele? - Sim. Ligo amanhã. Voltando ao laudo, Scanoni leu que Ricardo Antunes, num momento em que estava deitado, tinha sido atingido na parte anterior do tórax por cinco golpes de um objeto de cerca de vinte centímetros. Um deles tinha tocado a coluna vertebral da vítima, tendo sido provavelmente o primeiro. Também teve as mãos cortadas, provavelmente tentando se defender do ataque. Como era um homem de cerca de um metro e oitenta de altura e em relativa forma física, deduziu que o autor dos golpes necessariamente tinha ter porte físico parelho. Tanto para conseguir apunhalar a vítima com a profundidade do provável primeiro golpe, quanto para continuar o ataque. Tudo levava à hipótese de ser um homem de porte atlético. Esperou as dezenove horas para ir embora do trabalho. Parou numa padaria para fazer um lanche qualquer. Depois da refeição, fez a ligação dos seus sonhos. - Celinha? - Não! – voz de homem – Quem é que tá falando? - Não interessa! A não ser que você seja Celinha. O que é impossível com essa porra dessa voz. - Mermão. Aqui é o namorado dela. Quem é que tá falando, ô otário! - Vai se fuder! A porta do gabinete de Scanoni se abriu e entraram Celinha e Catarina. Ambas de calcinha de algodão e blusinhas minúsculas, que lutavam para prender os seus respectivos pares de seios. Scanoni sentiu uma miscelânea sinestésica de cheiros agradáveis. As duas seguiram em sua direção, encarando-o. Pararam em frente à sua mesa e começaram a se beijar. Resignado, ele abriu os olhos e passou o resto da noite insone. Pois é leitor, acho que até eu estou prestes a lamentar a sorte do nosso protagonista. Logo que chegou no outro dia na Seccional, Scanoni ligou ao IML. - Casanova. Quem é? - Aqui é o investigador Scanoni da primeira seccional. - Hum. E o que o senhor quer? - É sobre um cadáver. - Jura? Pensei que fosse sobre as minhas hemorróidas. Diga logo o que o senhor quer, porque eu tenho o que fazer. Scanoni se conteve porque reconheceu que não tinha sido direto. Disse-lhe o número de registro do laudo e o legista continuou impacientemente perguntando o que ele queria. - O cadáver tinha algum ferimento, algum hematoma? - Mas que porra de pergunta é essa? O cara tinha cinco perfurações no peito. Scanoni dessa vez se conteve porque reconheceu que não tinha sido objetivo. Consertou a pergunta. - Me refiro a ferimentos ou hematomas além dos que mataram ele, “açougueiro filho da puta”. – a última parte ele apenas pensou, fazendo apropriadamente uma careta raivosa. - Além das mãos rasgadas, não! Mais alguma coisa? - Tenho. – Scanoni pensou seriamente em dizer uma série de anátemas, mas respirou e lembrou-se de que sempre é importante manter os bons ofícios com a Polícia Científica – Mas esqueci. Bom dia para o senhor também. Ligou para Éber e comunicou que era possível que a pessoa que tinha discutido com Ricardo na noite do seu homicídio tivesse algum hematoma. - Lembra da caçamba de gelo e da toalha? Acho que usaram aquilo pra passar em alguma pancada. De repente na discussão alguém socou alguém, qualquer coisa assim. Procurem vestígios disso nos vizinhos que interrogarem, principalmente nos homens mais fortes. Tentem falar com todo mundo. Perto da hora do almoço, a tenente Rincowisk entrou no gabinete de Scanoni para tratar de um problema administrativo. Após isso, disse que ia almoçar. - Vai onde? – Perguntou Scanoni. - Ah. No São José. Vou com o meu pessoal. Quer ir? Scanoni prontamente se animou com a possibilidade de apreciar uma iguaria de mercado público. Desde a última sexta, quando comeu a última garfada do maravilhoso arrumadinho de carne de charque do Aritana, seu paladar tinha passado por terríveis experiências. Aceitou o convite alegremente. Finalmente um alento substancial naqueles dias inglórios. Passou o começo da tarde em relativa alegria, lembrando-se do gosto da costela guisada que devorara no almoço. Quase não fez nada que se relacionasse ao trabalho. O expediente se findaria sem mais eventos relevantes. No outro dia pela manhã, Éber e Cássio entraram com poucas novidades. Tinham conseguido interrogar sete vizinhos além dos que já tinham interrogado. Deles, uma senhora de uns noventa anos com grandes dificuldades de locomoção tinha um galo na testa; um garotinho de uns oito anos tinha um pé quebrado; uma dona de casa, uma queimadura na mão. Nenhum deles se encaixava. Fosse pelo tipo de lesão, fosse pelas condições físicas. Os agentes entregaram uma lista com os nomes, os telefones e os apartamentos dos interrogados. No apartamento do décimo andar, Scanoni notou um sobrenome conhecido. Associava-o a um homem que tinha interrogado na madrugada do homicídio. Norberto Atalipa. - E essa Silvia Atalipa aqui do décimo andar? O que ela disse? - Ah, ela tava viajando no dia do homicídio. Disse não saber muita coisa da vítima. E disse que ficou sabendo da história quando chegou de viagem na segunda.– retrucou Cássio. - E como ela soube? - O marido, que não tava na hora, tinha contado. O nome dele é Norberto. - Eu sei. Ela só disse isso? - Foi. -Hum. Estranho. Foi esse Norberto que encontrou o corpo. Ela não fez nenhuma referência a isso? - Nenhuma. - Me dá o telefone aí. Scanoni fez uma ligação para o telefone da mulher. Quando foi atendido, identificou-se e perguntou o que o marido tinha lhe contado sobre o homicídio. Ela respondeu que ele tinha dito apenas que um vizinho tinha sido morto. Quando o investigador perguntou se ele tinha dito que tinha encontrado o corpo ela disse que não falara nada sobre isso. Scanoni, depois de notar certa preocupação na mulher, agradeceu e desligou. Os três entreolharam-se por uns dez segundos. Éber foi o primeiro a falar. - Lembra como esse cara tava no dia? - Sim. Com uma roupinha feia do caralho! Respondeu Cássio. - E óculos escuros. – falou Scanoni. Era estranho praquela hora, né? Mas tava amanhecendo, o cara tava fazendo exercícios. Podia ser por isso. Mas podia ser também porque ele tava escondendo um olho inchado. Scanoni pegou o telefone novamente e ligou para o Tavares Buril. Perguntou se os procedimentos relativos ao homicídio na Rua da Aurora estavam prontos. Obteve resposta afirmativa. Os laudos papiloscópicos chegariam até o final da tarde. Depois do almoço no Mercado de São José, em companhia dos agentes da sua atual equipe, Scanoni postou-se sob a sombra de uma árvore próxima ao prédio da seccional para o descanso. Percebeu a aproximação de Adamastor. O mendigo, que tinha no rosto as marcas da briga do dia anterior, falou-lhe: - Acompanha-me num havano, doutor? Scanoni viu nas mãos de Adamastor uma caixa de madeira contendo charutos. Aceitou a oferta. Tomou o charuto, levou-o à boca e tirou o isqueiro para acendê-lo. Quando riscou o objeto, ouviu: - Não faça isso. Vai estragar as primeiras puxadas. O mendigo tirou um filete de madeira de aroma marcante, tocou-lhe fogo com um fósforo e esperou um pouco. Depois levou a lasca em chamas ao charuto de Scanoni e o acendeu. Repetiu o procedimento com o seu. O investigador, no começo um pouco surpreso com o comportamento de Adamastor, ia dando puxadas intensas no charuto, saboreando-o tranquilamente. Fumaram olhando o movimento. No final, Adamastor soltou. - Entenda como um presente, pois ratifiquei as suas boas referências. Uma boa tarde. – foi-se embora. No final da tarde, recebeu os laudos do Tavares Buril. Mas já sabia do resultado. Havia digitais de outra pessoa na cena do homicídio de Rafael Antunes. Muitas delas, recolhidas no corpo e nos pontos de sangue espalhados pelo quarto. Eram de apenas uma pessoa. Além delas, fios de cabelo de dois padrões distintos, um da própria vítima. Scanoni pegou o telefone e discou um número. - Alô. - Alô, falo com Norberto Atalipa? - Sim, quem é? - Aqui é o investigador Scanoni. Homicídios. A gente se falou na madrugada de sábado. Tudo tranqüilo? - Claro que sim! O que o senhor quer? - Eu preciso fazer umas perguntas sobre os eventos daquele dia. Quero que seja pessoalmente. Podemos nos encontrar? - Que perguntas? Não pode ser por telefone? - Só uns esclarecimentos. Se achar mais apropriado lhe envio uma intimação. Aí você vem na delegacia. – falou Scanoni num tom que soou ameaçador. - Não! Não precisa. Onde e quando? - Pode ser na sua casa em alguns minutos. É o tempo de eu chegar aí. - Certo. Mas não precisa ser na minha casa. Tem um café aqui na Rua do Lima. Prefiro que seja lá. Scanoni anotou o endereço. Tirou uma das fotos de dentro de um dos porta-retratos e seguiu para a coleta do indício. Quando chegou ao lugar combinado. Fez algumas perguntas redundantes a Norberto. Finalizou entregando a fotografia ao suspeito, fazendo-lhe a pergunta: - Sabe quem é esse rapaz? Norberto pegou a foto do jeito que Scanoni queria. Observou com atenção e respondeu: - Não. Depois que se despediu de Norberto, Scanoni ligou para o seu superior, o Investigador Major Saulo Andrade. Explicou-lhe brevemente o caso, observando que precisava de urgência no resultado de um procedimento forense, e queria a ajuda dele. Andrade lhe passou o nome e o número de telefone de um dos diretores do Tavares Buril. Recomendou a Scanoni que o citasse na conversa. O nosso protagonista cuidou de seguir todas as recomendações e combinou com servidores do Instituto de entregar a fotografia marcada com as impressões das papilas dérmicas de Norberto para que fosse feita a analogia com as que tinham sido encontradas na cena de homicídio da aurora do último sábado. O resultado ficou prometido para o início da manhã do outro dia: a almejada sexta-feira em que Catarina reapareceria. No outro dia antes de sair de casa, recebeu um telefonema lhe avisando de que a o resultado da analogia papiloscópica já estava disponível. Passou no Instituto e pegou o documento. Quando chegou à seccional, chamou os agentes que trabalhavam no caso e na presença deles leu o resultado. Identificação positiva. Com base nele, restava pedir a prisão de Norberto por homicídio. Ainda assim, faltaria um motivo para a conclusão do inquérito. Tinha uma hipótese e jogaria com ela para conseguir o seu objetivo. Resolveu ir à casa do suspeito. Sem avisar. Subiu depois de se identificar ao porteiro. Pediu que esse não anunciasse a sua chegada ao suspeito. Bateu a porta e Norberto a abriu. Assustado, ouviu o pedido do investigador para entrar. Sem saber como reagir, saiu da frente. Depois que sentaram, Scanoni iniciou: - Comece a falar o que aconteceu naquela noite. Escute bem! Não é o que aconteceu naquela madrugada, porque eu já sei que você mentiu. Fale sobre a noite, quando você matou Ricardo Antunes. Norberto empalideceu. Depois começou uma saraivada de negações. Scanoni, por meio de uma calculada inação, demonstrou que estava completamente indisposta a acreditar. O suspeito pôs-se então a chorar. Olhou para a cintura do investigador e viu a pistola no coldre. Scanoni esclareceu: - Não tenho nenhuma intenção de usar isso. Só vou usar se achar que você pode ameaçar minha vida. Aliás, só pra lhe deixar por dentro, se você não quiser falar nada, me avise, porque eu vou embora. Eu já sei que você foi o autor. Tinha impressão digital sua por todo o quarto, inclusive no corpo dele. Só preciso que me esclareça o motivo pra eu concluir meu inquérito com tudo dentro dos conformes. Você sabe! Fazer o trabalho direitinho, essas coisas. E também não vim aqui prender você. Eu ainda não tenho um mandado. Norberto enxugou os olhos e balançou a cabeça afirmativamente. Começou a contar tudo que aconteceu naquela noite. Ele tinha um caso amoroso oculto com Rafael fazia alguns meses. Mas a vítima queria acabar a história naquela noite. Eles tiveram uma discussão forte e Rafael o socou no rosto. A discussão parou depois disso. Foi quando o próprio Rafael lhe entregou gelo. Depois foi para casa. Não conseguiu dormir e quando se olhou no espelho, alguma coisa o convenceu de que tinha que matar o seu amante. Entrou no apartamento da vítima, pegou uma faca na cozinha e o esfaqueou. Depois voltou a sua casa, se limpou, lavou as roupas que vestia, vestiu as do treinamento e ligou para a polícia. Lembrou-se de usar os óculos escuros antes de descer e contar ao porteiro a história que tinha contado a Scanoni. - Ele queria acabar tudo porque eu não queria abandonar minha esposa e assumisse a relação. Eu não ia fazer isso. Eu tenho uma reputação. Não ia arriscar tanto. - Mas fez muito pior, matando ele não foi? – Norberto não respondeu. Scanoni então explicou a situação. Queria que o suspeito cooperasse. Deveria entregar as roupas e principalmente a faca que usou para cometer o homicídio. Os objetos seriam encaminhados para a perícia. Isso o ajudaria num eventual julgamento. Antes de sair, deixou uma recomendação. - Não pense em fugir. Se fizer isso, a coisa vira escândalo e todo mundo vai saber por que você fez o que fez. Acho que você ainda pode tentar manter sua reputação. Pelo menos a parte dela que você acha mais importante. Quando ia saindo do prédio na Rua da Aurora, Scanoni recebeu um telefonema. Era Catarina. Abriu um grande sorriso e atendeu animadamente. Ela ligava tanto para avisar da sua presença na cidade quanto para marcar uma visita a um apartamento. Scanoni tinha evitado o colega que a moça tinha indicado nos dias posteriores àquele telefonema que lhe deu esperanças. Marcaram para as onze daquela manhã. O imóvel ficava num edifício na Rua das Creoulas. Os dois chegaram quase no mesmo momento. Cumprimentaram-se. Catarina estava estonteante. Dela saía um aroma delicado, porém marcante. Vestia saia. Subiram e entraram no apartamento. Catarina foi mostrando cada cômodo. Cada movimento seu, estimulava os pensamentos do nosso protagonista, por meio do processo fisiológico que se passa pelo nervo olfativo e vai até o cérebro. Scanoni tentava se concentrar no que ia falando a moça, mas decidiu que ia aceitar tudo que ela dissesse. O apartamento ia se revelando. Tudo estava devidamente vazio e empoeirado. Num momento raro de lucidez, Scanoni apontou a varanda e os dois se dirigiram ao local. O cômodo se direcionava ao sul. No seu canto direito, era possível ver o Capibaribe serpenteando a planície recifense. - Vou ficar com ele. Depois disso, começou a conversar com a moça. Catarina sibilava e colocava o artigo definido na frente dos nomes das pessoas, revelando que era de fora. - De Natal. – tirou a dúvida que restava. Ela disse que trabalhava corretando imóveis na empresa de um primo, quando seus assuntos acadêmicos lhe permitiam algum ócio. Disse que estava no Recife acabando uma pós-graduação em Psicologia. Foi nesse momento que mudou o tom e disse que só tinha vindo à cidade para resolver os últimos assuntos. Voltaria a Natal ainda naquela sexta. Scanoni conseguiu esconder o desespero que ia tomando conta dele. Emudeceu. Pois é, ele não estava raciocinando bem. Ao senhor, caro leitor, não pareceu óbvio que dois dos últimos assuntos que a moça ia resolver em Recife estavam associados ao nosso amigo Scanoni? Para a sorte dele, existem mulheres de iniciativa nesse mundo. Era o caso de Catarina, que lhe lançou um olhar de luxúria, parcamente percebido. E ainda suplementou: - Só nós dois aqui, o apartamento todo vazio, e um balcão na cozinha pedindo pra ver se aguenta. Scanoni engoiou no primeiro momento, pois nem nos seus sonhos esperaria um comportamento tão incisivo da moça. Todavia, sem muitos sacrifícios, logo se recompôs. Ergueu a cabeça, estufou o peito e aceitou o convite para a mais doce das batalhas. Os dois objetivos daquela jornada foram alcançados. Sobre os eventos que se sucederam, basta que o leitor saiba que o balcão aguentou.

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