Friday, August 9, 2013

No engarrafamento

Toda vez era a mesma coisa. Desligava o computador quando faltavam uns cinco pras seis. Usava o tempo pra sair da cadeira e chegar ao carro. Quinze minutos mais, entrava na Avenida Rosa e Silva. E era a mesma coisa, até chegar à Malaquias e dobrar. Tinha que ir devagar porque a rua sem-pre estava repleta de carros como o meu. Íamos num passo lento, convivendo. Ontem foi diferente. Entrei na Rosa e Silva e, não sei por que, olhei a calçada à esquerda. Acho que nunca a tinha olhado. Aí passou, lépida e serelepe, uma moça. O primeiro passo dela, sincronizou-se com o movimento da minha ca-beça, mas em sentido oposto e seu rosto me foi negado. Vi-a de costas, descendo um desnível do passeio. A curtíssima saia amarela com florzinhas deu uma balançadinha e eu pu-de notar uma pontinha de tecido branco. Todo distraído, es-cutei uma buzina. Era um companheiro de engarrafamento. Segui, sem tirar os olhos dela. Ela ia com a graciosidade do início de uma noite de ve-rão recifense. Os braços se revelavam num balanço gostoso. Descobertos, no calor do crepúsculo. Os passos eram leves, mas tinham uma suculência ditosa. E a saiazinha balançou de novo. O desnível era maior e me deixou ver mais que uma pontinha de tecido branco. Mais um tempinho e veria seu rosto. Porém, de repente, a traseira de um carro, ratifi-cada por um duplo feixe de luz vermelha, fez-me parar. E ela se distanciou. Perdi-a. Olhei o semáforo e uma luz rubra da cor do desespero se acendeu. Quis abandonar o carro. Seria uma tragédia praquele sistema a que tanto nos acostumáramos. Aí apareceu o verde e segui. Passei a encruzilhada e vi o cabelo alourado e esvoaça-do. Tentei sentir o cheiro, mas meu vidro estava fechado pra não deixar que o gelado ar condicionado escapasse. Mas ti-nha os olhos pra ver o balanço. E quando me aproximava, ela teve que passar outro desnível. “Benditos sejam”. Falei na solidão. Fui acompanhando aqueles passos. E vinha um desní-vel gigante se aproximando. Fitei aquelas pernas suculentas iniciando o movimento de dobradura. Mas veio um cami-nhão de não sei onde e me tampou a visão do balanço da saia. “Maldito”. O sinal se abriu e a vi de novo. Os braços livres, as per-nas suculentas, o cabelo esvoaçado. Já quase junto dela, tive que parar. Fiquei esperando o outro desnível, pra ver a saia balançar e mostrar um pedacinho de tecido branco. “Adorá-vel desnível”. Falei alto, querendo que ela ouvisse. Mas um camarada buzinou longamente. Andei uns metros e parei de novo. Ela se afastou. Desapercebido, nem percebi que uma placa anunciava a Malaquias. Acendeu-se o verde: era o fim. Quando me pre-parava pra dobrar, ela irrompeu atravessando o meu cami-nho. Parei, mas não lhe vi o rosto. Só depois a saiazinha ba-lançando dum lado pro outro. Ela se foi. Mas hoje não vai ser como todo dia. Vou direto pra Ro-sa e Silva, caminhando. Chego às seis e quinze. Quem lá sabe se pra moça não é sempre a mesma coisa? Espero-a na cal-çada pra lhe ver o rosto. Ou pelo menos o balanço da saia.