Wednesday, August 20, 2014
O xadrez de Punta del Este
- Venham. A casa é de vocês.
Não. Não era. Tanto que ao entrar no apartamento e ver aqueles estranhos, Renato ficou ainda mais angustiado. Tinha, desde a noite anterior, a resoluta intenção de acordar o mais tarde que pudesse e permanecer deitado trocando carícias com a esposa na cama, se possível, até o fim da tarde daquele domingo. Mas Ivana recebera um convite. Joana, uma amiga dos tempos do ensino médio no colégio, que ela devia ver uma vez a cada dois anos em alguns daqueles impertinentes encontros de rememoração dos eventos colegiais, tinha inventado um almoço num restaurante de comida contemporânea que haviam inaugurado pouco tempo antes.
Toda vez que ouvia o adjetivo contemporâneo associado a qualquer coisa que lembrasse comida, Renato já pensava em alguma extravagância da cena gastronômica da cidade, que vinha tendendo vertiginosamente à completa promoção do impalatável. Outro dia, tinha lido num suplemento cultural de uma gazeta local que um restaurante promoveria uma degustação com pratos que mesclavam insetos amazônicos às releitu-ras pós-astecas do uso de espumas de pimenta. O preço, naturalmente, era acintoso. Esperava algo assim no seu almoço naquele dia, inclusive o desembolso de uma quantia exorbitante.
Embora desgostoso, aquiesceu às tolerâncias benevolentes da consorte. Mas al-gumas horas depois, o que deveria ser um encontro com várias possibilidades de abreviação, tinha se tornado uma aterrorizante reunião entre amigos; quase uma festa. E no local determinado, o apartamento de Joana, para onde ela e o marido tinham se mudado havia uns dois meses, a fuga, facilitada pelo pagamento da conta, tornara-se improvável. A angústia o tomou, já que ele não conseguia entender o motivo daquela mudança, nem sequer os processos que levaram a ela.
Enquanto se aproximava para os obrigatórios cumprimentos e apresentações, chamaram a atenção de Renato duas grandes telas posicionadas uma em frente à outra nas paredes opostas da sala de estar. Ambas, se é que era possível definir aquelas medidas sem instrumentos mais adequados que o cérebro, eram quadrados com um metro de lado. Entretanto tais dimensões impressionaram menos a Renato que os conteúdos. A tela da direita era quase totalmente branca se não fosse um círculo vermelho exatamente no seu centro e um rabisco no canto direito, provavelmente a assinatura do artista. A da esquerda, por outro lado, era caótica. Talvez houvesse mais de uma centena de traços e formas irregulares, cada um com uma cor particular, dis-postos sobre um fundo muito preto que parecia mais regular nas esquinas da tela, o que ainda dava ao conjunto uma feição de circunferência. Nessa tela, também havia um rabisco num tom esbranquiçado, idêntico ao da outra tela. Estava escrito “Ivana”.
Intrigado com a ideia de que Ivana, sua mulher, tinha dotes artísticos daquele ti-po, olhou-a e convenceu-se de que não. Avaliou que num convívio de mais de cinco anos era improvável não saber disso. Além de quê, segundo as próprias revelações de Ivana, qualquer intimidade entre as duas tinha ficado no início da adolescência e fazia mais de dez anos que os contatos tinham se tornado muito esporádicos. Devia ser outra Ivana.
Mas o evento mais intrigante em todo aquele dia, pelo menos para Renato, foi resultado de um rápido soslaio que ele deu na direção da mesa de centro. Havia sobre ela um xadrez. E embora não fosse versado sobre rochas utilizadas na decoração de ambientes, convenceu-se de que o tabuleiro era de mármore.
Em seguida, Joana introduziu o casal aos estranhos. Os nomes, Renato não os guardou. Não fora um simples exercício calculado de antipatia, mas ele pensava no xa-drez. Algo estava errado e ele voltou a olhar o jogo. Percebeu que as pedras se separa-vam em dois grupos, obviamente representando os dois exércitos simulados que litigam no jogo. Um tinha uma cor metálica avermelhada. O outro era de um metálico natural.
- Ah. Renato é professor de Português – falou Joana, revelando a profissão do nosso amigo.
Um silêncio se fez e os estranhos fitaram Renato. As feições, acompanhadas de um gestual inquisitivo, sugeriam que aquelas pessoas esperavam alguma fala. Como era habitual quando citavam em uma conversa o seu papel na sociedade, Renato chegou a imaginar que se tinha suspensa no ar, qualquer dúvida sobre empregos da crase ou sobre ortografias. Mas sem ter certeza de que era esse o motivo da atenção que lhe dispensavam, resolveu replicar com um “É.”, seguido de um sorriso indolente. Mas ainda o olhavam. Ele replicou os olhares em silêncio, encarando ligeiramente todos os rostos. Tão ligeiro que não pode perceber o que acontecia. Não que isso lhe interessasse muito, mas, apesar de se reconhecer antipático, normalmente era disposto a algum esforço no sentido contrário. Salvou-lhe a entrada na sala de René, o marido de Joana.
- Amor, pode ir que eu já acabei a minha parte.
Seguiu-se à fala do anfitrião, uma série de cumprimentos daqueles estranhos que ora habitavam a sala. René usava um avental com uma representação cartográfica disparatada do México, ilustrada por desenhos de pimentas de várias cores e tamanhos. Tirou a peça e a entregou à esposa como um comandante que entrega a insígnia ao contínuo. Renato aproveitou que saía do foco daquela atmosfera que entendia inquisitiva para olhar o tabuleiro de novo. As pedras pretas se postavam corretamente. No sentido do avanço, da direita para a esquerda: torre, cavalo, bispo, rei, rainha, bispo, cavalo, torre. Peões na vanguarda.
Renato, devo advertir o leitor, não era um enxadrista. Conhecia apenas as regras de movimentação das pedras. Chegou a jogar algumas partidas, mas logo se admitiu mau jogador. Argumentava que não tinha concentração e paciência suficientes para executar os cálculos que o jogo demandava. “Prefiro poker”. Usava esse suplemento como uma justificativa, o que sempre soava demasiadamente insensato. Mas isso fazia muito tempo.
Continuava a investigação. O mármore do tabuleiro tinha uma textura áspera co-mo uma lixa. Sentiu a condição depois de ter tocado a peça. Se ele fosse inteirado no assunto poderia chamar de mármore escovado. As casas brancas eram de um tom branco não muito puro, e as pretas eram de um tom róseo. As pedras, notou pela frieza e densidade, eram de metal. Já tinha observado algumas, quando percebeu que o bispo do rei preto tinha uma leve inclinação. Mexeu na pedra, com o cuidado de não derrubar outras. Retirou-a do tabuleiro e passou o dedo na casa. Havia uma deformidade causada por um fragmento cristalizado e mais duro. Julgou-a normal. A torre do mesmo rei também se posicionava anomalamente. Retirou a pedra, fez a mes-ma coisa com a casa e sentiu outra deformidade. Dessa vez era uma ranhura mais espessa, que deixava a casa com dois níveis. Ainda que mínimos, eles perturbavam o equilíbrio da torre preta, que não era de fato preta e sim cúprea.
Ao pôr a peça de volta, Renato arregalou os olhos e sentiu uma espécie de fluxo agradável dentro do corpo, que lhe movimentou o diafragma. A torre do rei preto ocu-pava uma casa preta. Lembrou-se rapidamente de uma reprimenda que tomou de um colega de escola, melhor jogador que ele, quando petulantemente jogava uma partida contra si mesmo: “Ajeita esse tabuleiro! A torre da direita do jogador sempre tá numa casa branca. Sempre!” Não que ele tivesse qualquer trauma de infância por causa desse evento, mas se lembrava tanto dele quanto do colega, embora o nome do último, já ignorasse. Vieram-lhe então algumas lembranças dos tempos de colégio. Mas era tudo meio embaçado naquele tempo.
- Gostou? – perguntou René, interrompendo as divagações de Renato.
- Hum. O tabuleiro tá errado. A posição correta é essa - com uma retidão profes-soral, Renato virou a peça e, apontando o jogo, continuou – Essa casa tem que ser sem-pre branca.
- Hum – respondeu René fazendo uma cara simpática e girando uma exagerada-mente roliça taça de vinho - É? Não sabia. Pra falar a verdade, eu nem sei jogar xadrez – Riu com uma arrogância sutil e continuou – Isso aí é só um enfeite. Mas esse mármore é muito bom. É escovado. E as peças cinzas são de níquel e as vermelhas, de cobre. A gente comprou em Punta del Este, no Uruguai, na lua-de-mel. Foi pra harmonizar com o centro. Uma grana alta, mas valeu o investimento. Ficou muito bom, não é?
Renato o encarou e notou as feições orgulhosas. Sofreu agudamente por causa do tempo que despendera com o problema do xadrez. Repetia-se dentro da sua mente, a frase “Isso aí é só um enfeite”. Tentou um sorriso, que se formou tremendamente vacilante no rosto e falou, não respondendo à pergunta de René, mas concordando com a frase que lhe martelava o juízo:
- É.
F.M.
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