Friday, October 26, 2012

Raticidas Populares

Do conto ainda não publicado “Raticidas Populares” Adauto estava com a cabeça presa numa espécie de gaiola e um rato com grandes olhos pretos brilhantes e cara de esfomeado apareceu na sua frente, encarando-o. Inicialmente pareceu aterrorizante. Mas em vez de atacá-lo, o rato pegou nas mãos uma caneca cheia de chumbinho, tomou todo o seu conteúdo e começou a rir e dançar executando os mais complexos passos de frevo. De repente, caiu duro. Morto. Adauto acordou pouco antes das dez e continuava sem fome. Lembrou do sonho esquisito que acabara de ter e pensou: “eita porra! Rato tem no jogo do bicho. Amanhã, eu jogo”. A presença de Vanessa (ainda que anônima) nos pensamentos de Adauto estava agora bem mais dominante. Talvez até tivesse sonhado com ela e não se lembrasse. Certo desespero começou a se apropriar da cabeça dele. Tinha pensado o dia quase inteiro em uma mulher e sequer sabia seu nome. Pensou que no outro dia poderia começar a procurar saber quem era aquela maravilhosa morena com olhos cor de mel assustados que quase o atropela. Mas esperar mais um dia talvez não fosse suportável. Já não lhe bastava acreditar na possibilidade de outro encontro fortuito. Precisava falar com ela, olhá-la, responder àquele pedido de desculpas feito pela manhã. Precisava tirar a apreensão daqueles olhos escancarados. Precisava dela. Adauto sofria agora de uma coisa chamada paixão platônica. Concordo que alguns podem dizer que é meigo ser o sujeito de uma paixão desse tipo. Que num mundo tão frívolo, imediatista e materialista, encontrar alguém que se contente em dispensar um sentimento como o amor a algo tão sublime quanto uma simples ideia é uma raridade. É verdade que pode até ser bonito e qualquer coisa assim, mas o fato é que numa paixão platônica, ninguém trepa. E nesse caso a angústia de Adauto era justamente a mais direta consequência do fato de ele cultivar uma crença inabalável nisso. Permita-me uma nota, caro leitor. Não preciso negar, nem sequer omitir que para relatar essa história, utilizo um daqueles programas editores de texto que o tempo inteiro sublinham palavras com listras onduladas ora vermelhas, ora verdes. Quando escrevi a palavra ”trepa” no parágrafo anterior, apareceu uma dessas listras verdes. Curioso, fui checar o que o programa sugeria como uma opção melhor à palavra escolhida por mim. Eis a opção: “tem relações sexuais”. Agora por favor, leia o parágrafo anterior com a mudança sugerida pelo programa. Adauto sofria agora de uma coisa chamada paixão platônica. Concordo que alguns podem dizer que é meigo ser o sujeito de uma paixão desse tipo. Que num mundo tão frívolo, imediatista e materialista, encontrar alguém que se contente em dispensar um sentimento como o amor a algo tão sublime quanto uma simples ideia é uma raridade. É verdade que pode até ser bonito e qualquer coisa assim, mas o fato é que numa paixão platônica, ninguém tem relações sexuais. E nesse caso a angústia de Adauto era justamente a mais direta consequência do fato de ele cultivar uma crença inabalável nisso. Eis a prova cabal de que a supremacia da inteligência artificial vai continuar sendo ficção científica por muito tempo. Mas finalizemos aqui a reflexão sobre o platonismo. Pois bem, Adauto precisava tornar real a idéia. E naquela noite! Decidiu simplesmente sair e procurar pela cidade. Numa situação dessas, os teóricos da escolha racional reprovariam fortemente a atitude de Adauto e até cogitariam a possibilidade de retirá-lo do rol de atores sociais que participam do modelo que pretensiosamente admite poder explicar todas as decisões dos seres humanos. Ora, com informação insuficiente sobre qualquer coisa que se referisse à mulher, Adauto gastaria tempo e recursos financeiros numa busca que naturalmente só teria sucesso se terminasse quando o objetivo tivesse sido alcançado. A informação mais crítica se referia apenas aos seus costumes noturnos às quintas-feiras. Mas aquela não estava disponível. Talvez os costumes dela se limitassem a ficar em casa, dormir cedo para acordar bem no outro dia e ir trabalhar. Se fosse assim – e era bem provável que fosse assim – as chances de Adauto seriam nulas. E a relação entre custos e benefícios com que teria que arcar nosso protagonista, resultaria em um número inexistente dentro do conjunto dos números reais, já que teria um denominador nulo. Acredito que os teóricos da escolha racional (se é que em algum dia tomarão ciência do que está sendo escrito aqui ou mesmo conheçam Adauto Portela por outros meios) já teriam desistido de nosso protagonista e cuidariam para que notícias sobre o assunto não se espalhassem. Que tipo de racionalização leva um indivíduo a tomar decisões que o fazem aplicar recursos escassos para a obtenção de um benefício cuja probabilidade de existir é próxima da nula? As decisões de Adauto naquela noite o condenavam ao ostracismo em relação ao modelo. Mas ele não estava nem aí para o que tinha a dizer sobre as suas decisões a Teoria da Escolha Racional. Pôs uma roupa adequada e elaborou mentalmente um roteiro. Os bares eram o destino. Tinha um trunfo. No Recife, tais estabelecimentos comerciais, contrariando todas as leis de uso e ocupação do solo, costumam deixar suas mesas nas calçadas e em certas ocasiões até na rua mesmo. Se Vanessa tivesse saído naquela noite, seria muito provável que ela estivesse sentada a uma dessas mesas. Confesso que não sei quais critérios Adauto usou para estabelecer essa alta probabilidade, mas tenho quase certeza de que tal avaliação era uma questão de fé(...) (...) Quando estava quase chegando, passou a avaliar as decisões que tinha tomado momentos antes de sair pela cidade tarde da noite em uma busca que só não fracassa quando faz parte do enredo dos folhetins românticos lidos pelas jovens abestalhadas da burguesia ascendente da segunda metade do século XIX ou das comédias românticas mais melosas produzidas por Hollywood. Olhou para o relógio, que marcava quase duas da manhã. Ia dormir pouco, mas pelo menos ia ser na rede nova que tinha comprado naquele dia. Quando atravessava agora a ponte sobre a foz do Pina, olhou para a sua direita. Estava o centro da cidade. Lembrou do efeito mais agressivo da ação dos elementos nas fachadas dos prédios da região: uma mistura de lodo seco, poeira, fuligem e sabe-se lá mais que tipo de asquerosidade. Ao contrário do que acontecia quando passava no mesmo lugar à tarde, não conseguiu ver mais nada daquilo. A sujeira impregnada nas partes externas dos prédios que a luz do dia tornava escancarada não estava mais presente. Só via algumas silhuetas retangulares, outras de torres eclesiásticas e algumas luzes acesas, ora da iluminação pública, ora de alguma ou outra janela. A lua ainda veio para ajudar. Não estava propriamente cheia, mas fixava o seu reflexo na nervosa água da foz. Era de fato um belo cenário, sem pieguices. Essas percepções vieram imediatamente depois que Adauto avaliou suas decisões e esteve prestes a concluir que tinha feito escolhas erradas, considerando apenas os resultados da sua busca. Embora não pensasse exatamente com esses termos, reavaliou as suas decisões e admitiu que teve ganhos, mesmo que estes fossem externalidades. Cá entre nós, talvez ele até pudesse pedir aos teóricos da escolha racional para ser readmitido no modelo. Fazia um calor desgraçado e Adauto estava sentado em uma mesa de um bar qualquer. Pediu uma cerveja e o garçom não demorou a trazê-la. Começou a pensar no precioso e geladíssimo líquido que, dado o incômodo causado pela angustiante temperatura recifense, ao ir entrando gradativamente em contato com os órgãos do seu sistema digestivo, causar-lhe-iam uma agradabilíssima sensação de alívio. Levou o copo à boca para iniciar tais contatos e tomou-o de uma vez. Não sentiu nenhum alívio. E para piorar, o mesmo rato que tinha aparecido antes estava agora sentado ao seu lado com a mesma cara de esfomeado. E como não há nada que esteja tão ruim ao ponto de não poder ficar pior, o rato dessa vez tinha o tamanho do delegado. Cruzou as pernas, pediu uma caneca de chumbinho ao garçom, que também lha trouxe rapidamente. Tomou de vez. Após isso, levantou-se e começou a executar novamente os passos mais complexos de frevo. Caiu duro. Morto (...)

O problema das versões brasileiras

Do conto ainda não publicado “O problema das versões brasileiras” Parte IV Acordei de um cochilo de quatro horas após ter comido um spaghetti al pomodoro de primeiro prato e uma gregliata di mare de segundo e regado todos esses alimentos com uma garrafa do delicioso vinho tinto da Trattoria di Alfredo. Tinha sido uma das melhores refeições que tinha feito na vida. Era meu último almoço na Itália. Nesse aspecto a chave tinha necessariamente que ser dourada e adornada com minúsculos pedaços lapidados de pedras preciosas. Ainda não tinha começado a escurecer, mas o sol já não era facilmente localizável no céu. Ademais, a minha orientação tinha se anulado desde o momento em que eu descera do avião e pisara em solo europeu. Fiquei cerca de trinta minutos na cama fazendo algumas avaliações sobre as minhas férias. Poderia ter ficado rico, mas o risco era amedrontador. Apaixonei-me por um dia, mas Margherita não estava disponível. Encontrei meus parentes calabreses. Meu italiano evoluiu também de uma forma impressionante. Tive ganhos indiscutíveis. Fui até a sacada do meu quarto de hotel e acendi um cigarro. Escrito na embalagem estava: fumare uccide. Comecei a me indagar, pois deveria ser uccida em vez de uccide, dado que o verbo em questão seria uccidare. Acabei de tirar minha dúvida num desses dicionários de internet. E o verbo não é uccidare e sim uccidere. Logo, o pressuposto em que se baseava aquela minha inútil indagação era inválido. Acabei o primeiro e acendi outro. Começava a bater o sereno. O vento frio tocando os meus antebraços e pescoço me causava uma sensação bem agradável. Ainda havia um pouco de vinho na garrafa acima da escrivaninha. Comecei a tomá-lo. Cada gole me aproximava do fim da viagem; do momento em que diria arrivederci Italia. A luz do dia já quase não existia mais. Já passavam das 21 horas. Resolvi que ainda sairia. Era uma sexta-feira. Nenhuma extravagância; só tomaria umas cervejas. Havia um pub irlandês bem perto do hotel. Ia para ficar até pouco mais de meia-noite, pois no outro dia teria que sair por volta das 10 da manhã para começar a ida ao aeroporto de Fiumicino. Tomei um banho. Dessa vez, consegui evitar as queimaduras. Preparei um sanduíche de mortadela com o último pão e com as últimas fatias do delicioso embutido. Lembrei-me do pacotinho de manteiga que tinha roubado do café da manhã. Ia lubrificar a descida do alimento na minha garganta. Tomei os dois últimos dedos de vinho. Arrivederci! Entrei no pub e falei com o pessoal que conhecera nos primeiros dias. Pedi uma caneca de cerveja que se bem lembro era de alguma marca britânica. Numa área à direita da entrada do bar, tocava uma banda de blues. Não prestei muita atenção. Preferi ficar olhando as televisões do bar que estavam transmitindo algum canal irlandês de esportes. Passava um programa sobre as estrelas do futebol irlandês. Não conhecia nenhum. Aliás, o único jogador de futebol irlandês que eu conhecia, deixou de ser irlandês quando eu descobri que ele era galês: Ryan Giggs. De qualquer forma, era melhor ver aquilo do que apreciar aquela banda bisonha. Fui à parte de fora para fumar um cigarro. Havia uma área coberta por um toldo onde ficavam algumas mesas do bar. Comecei a calcular a razão entre mulheres e homens e descobri que para cada uma do primeiro grupo, havia quatro e meio do segundo. Que desgraça! Dove sono le donne? De fato não estava propriamente preocupado em me dar bem naquela noite. Como disse, a noite seria leve. Mas pretender que dentro de um determinado contexto a razão entre mulheres homens seja maior que um é quase um pleonasmo. Se eu só ia observar, mulheres definitivamente são mais interessantes. Acabei o cigarro e entrei novamente. Pedi outra caneca e uma tigelinha de pistache. Sentei-me e voltei a assistir aquele programa no canal irlandês. Percebi duas moças entrando e se dirigindo a uma mesa no fundo do bar. Não dei muita atenção no primeiro momento. Depois inevitavelmente procurei as meninas de onde estava sentado. Não as vi, pois a mesa delas se localizava em uma posição cuja visão a partir do lugar onde eu estava se tornava impossível caso alguém se sentasse ao bar nos bancos mais próximos da extremidade mais distante de mim. Desisti. Talvez depois as visse. Continuei olhando a televisão. Agora passava algo sobre uma espécie de competição em que torcedores entram em campo no intervalo de jogo para cobrar tiros diretos da marca do pênalti. Um dos bastardos fez um golaço à Djalminha. Comecei a dar risadas. Pouco depois passou por mim, um casal. Resolvi olhar novamente na direção da mesa das moças que tinham entrado antes. Dessa vez, a visão era possível. E para minha surpresa, havia dentre as duas, um rosto conhecido. Certa vez em Recife, estava em algum lugar provavelmente resolvendo algo relacionado ao meu trabalho ordinário. No estacionamento, tomei um susto desgraçado quando um carro chegou de repente e estacionou ao lado do meu. Desse carro, saiu uma moça maravilhosa com olhos verdes e cabelos meio ruivos. Eu lembro que fiquei tão embasbacado que nesse dia tomei a decisão cretina de procurar a menina pela noite recifense. Nunca a encontrei. E ela agora estava sentada a poucos metros de mim num pub irlandês em Roma. Talvez o leitor que nesse momento já deve estar acostumado ao excesso de realismo contido no estilo empregado para narrar as minhas histórias, esteja duvidando da veracidade do que eu estou contando aqui. Mas é a mais pura verdade. Aconteceu. Passei uns cinco minutos olhando para a mesa. Era definitivamente a moça do estacionamento. Resolvi simplesmente ir lá. Aproximei-me e notei que ela estava falando em inglês com a outra garota. Pedi licença a esta e falei “oi moça”. - Oi! Respondeu a moça do estacionamento exalando desconfiança. - Recife, não é? - Sou! Fez uma deliciosa cara de inquisição Dei uma leve risada e disse que era uma história meio longa e se eu pudesse sentar com elas eu contava tudo. Em inglês, se fosse o caso. Ela riu e me perguntou meu nome. - Pedro. Já te vi em algum lugar por lá. - Sério? E foi mágico assim pra você não me esquecer? Ehehehe. - É. Por aí. Mas como é teu nome? -Maria. Nesse momento ela me olhou diretamente nos meus. Ergueu levemente a sobrancelha direita como se fosse uma mulher fatal de filme noir. Apesar da penumbra o verde da sua íris agora escancarada ficou ostensivo. Adorável! - Pera! Ela se dirigiu a outra moça em inglês contando parte da coincidência e nos apresentou. A outra era inglesa e se chamava Laura. Laura talvez fosse também muito bonita, mas não consegui olhar outra coisa que não fosse Maria. - Senta aí Ivo. E começa a contar essa história longa. - Começo. Iniciei a história do estacionamento. Como resolvi omitir a parte que denunciaria a minha paixão repentina por ela, a história realmente não foi longa. Nem sequer meio longa. A partir disso, começava a nossa conversa a três em inglês, pois Laura não falava nenhuma flor do Lácio, ainda que passasse férias nele. Primeiro, o básico. De férias aqui? Foi aonde? Fez o quê? Volta quando? Depois disso, as curiosidades da viagem. Fiquei sabendo que as duas tinham se tornado amigas em Londres e vindo juntas a Roma. Depois de coisa de uma hora de conversa, Laura manifestou sua vontade de ir embora. Maria pareceu querer ficar, mas manifestou solidariedade à amiga. E eu disse que se elas fossem eu também iria. Laura isentou Maria da responsabilidade. Are you sure? Laura estava. O hotel delas também era bem próximo. Despedimo-nos. Nesse momento observei Laura cuidadosamente. Era de fato linda. Mas o meu objetivo era Maria. Desde que sentei com elas, trocara a cerveja por vinho. Elas já tomavam vinho desde o começo. Depois de mais ou menos meia hora de conversa desde que Laura se fora, resolvi revelar os eventos ocorridos no dia daquele encontro no estacionamento, que tinham sido omitidos na primeira versão da história. O vinho me encorajou um pouco. E o efeito dessa bebida nas expressões faciais de Maria era apaixonante. Por que não revelar que tinha sentido algo parecido por ela naquele dia? Maria riu bastante. Demonstrou ter gostado da ideia. Depois disso, começamos a conversar banalidades. Não existem temas melhores do que os banais para manter uma conversa com moças interessantes. Principalmente se for a conversa regada a vinho. Afirmo com toda certeza. Não me lembro de muita coisa do que a gente conversou nesse dia, mas um tema ficou na minha memória. Começamos a falar das traduções dos títulos de obras estrangeiras ao português no Brasil. - Existe um autor italiano, siciliano, de literatura policial de quem eu gosto pra caralho. Inclusive, fui em Porto Empédocle, que é a cidade natal dele e que seria a base pra criação da cidade fictícia dos textos dele sobre o protagonista. Ele escreveu um livro de contos que se chama em italiano Gli Arancini di Montalbano. A porra da versão brasileira chamou o livro de O Ano Novo de Montalbano. Tem até certo sentido porque os contos se passam no decorrer de um ano e o último é o réveillon do cara. Só que esse título era justamente pra fazer referência a uma fritura muito gostosa, típica da Sicília chamada arancino, que é um bolinho de arroz recheado com carne, empanado e frito, que fica parecido com uma laranja, arancia. Aí vem a tradução brasileira e praticamente chama gli arancini de ano novo. Porra! Isso engana o leitor sem ele nunca ter perguntado nada. Aí vai o leitor curioso saber o nome do título original do livro e é levado a acreditar que arancini é uma expressão italiana que significa ano novo. O tradutor assume que arancini é uma palavra ininteligível, ou pior que o leitor é incapaz de conhecer o significado da palavra por seus próprios meios. Isso é quase um coitus interruptus. Só que o cidadão que interrompeu a brincadeira, nem sabia que tava trepando. Maria começou a rir copiosamente e depois falou: - Caralho! Maria é precisa e deliciosamente desbocada - Eu penso exatamente a mesma coisa. E tenho até um exemplo de uma babaquice dessas. - Qual? - Sabe aquele filme idiota de terror pra adolescente? Pânico? - Sim, sim! - Pronto, o nome dele em inglês é Scream, grito. E a máscara do assassino lá é simplesmente o rosto daquele quadro que se chama O Grito. Se a merda da versão brasileira simplesmente tivesse traduzido literalmente, um monte de gente talvez se interessasse pelo porquê do título e saberia da pintura. Que é um quadro muito foda! É de um pintor chamado Edvard Munch. Não sei de onde ele era. Enfim, o que eu tou dizendo é que a idéia até inteligente – e digo inteligente ciente dos limites intelectuais que podem envolver o processo de criação de um filme daqueles – voltando... a idéia até inteligente de que quem criou o filme teve, morreu na versão brasileira. - Pois é, quem tem contato com o título não faz a menor ideia do que causou aquilo. Aliás, ele nem sabe que existiu um processo que resultou naquilo. É negada a ele possibilidade de uma reflexão sobre a arte que ele vai apreciar. - Exatamente. Maria riu com os olhos quase fechando por causa do vinho. Os mais de cento e cinquenta mil anos de civilização da nossa espécie me seguraram e me impediram de pular em cima dela. - Ah. Eu tenho outro exemplo. - Conta! - Sabe aquele filme que tem um vilão muito pirado chamado Bisorossuco? - Sei, sei! Adoro esse filme. Com Winona Ryder. Hehehe. - Pronto! O nome do filme em inglês é Beetlejuice. Aí qual é o nome da porra do título no Brasil? - Os fantasmas se divertem. Ahahahah! - Isso! Que título imbecil! Eheheh! Eu tenho uma hipótese sobre o motivo de não terem traduzido literalmente. Sabe qual é? - Não. Conta! - A graciosidade de Maria quando me mandava contar alguma coisa era... Não sei o que dizer. Talvez não haja palavras no nosso léxico. - É que o título em inglês tá escrito errado. A palavra beatle tá escrita com “ee” e não com “ea”, que é o correto. Besouro. Mas porra, a tradução em português podia exatamente ser algo como Bisorossuco, ou qualquer merda parecida. Em vez de besouro, simplesmente B I S O R O, sei lá! Começamos a rir barulhentamente. Num ponto em que o ritmo das risadas já arrefecia, Maria começou a me olhar nos olhos. As pálpebras um tanto arriadas, um leve sorriso erguendo as maçãs do rosto, o que deixava seus olhos verdes ainda mais interessantes. Retribuí. Ficamos assim uma eternidade. Novamente, dirijo-me ao senhor, leitor, que chegou até aqui acompanhando estas histórias tão bem objetivamente descritas. O senhor deve estar estranhando a referência à eternidade. Se recorrer a outros pontos das minhas histórias, certamente achará a imagem deslocada. Mas começava uma dessas histórias de amor. E nelas essas impossibilidades materiais fazem todo o sentido. Depois da eternidade, ela começou a falar novamente. - Que coisa engraçada, né? - O quê? - Não sei. A gente se encontrar aqui. Maria não estava ainda inteirada do que acontecia. Certamente a conversa se desenvolveria e eu poderia ter-lhe explicado. Só que um garçom me interrompeu. Ele chamou nossa atenção para dizer que o bar estava inexoravelmente fechando. Eu nem sabia como se fala “inexoravelmente” em italiano, mas foi inexorabilidade o que eu senti. Maria resmungou algo em português. Eu dei um sorriso e demonstrei resignação. Na verdade, eu e ela caminharíamos juntos até o seu hotel. Eram uns cinco minutos de conversa numa velocidade normal. Dava até para alongar esse tempo se a gente caminhasse com mais leveza. Saímos do pub e começamos a caminhar. Fazia frio. Eu vestia apenas uma camisa de malha de mangas compridas e uma calça jeans. Maria, que estava mais agasalhada percebeu que eu estava tremendo um pouco. Agarrou meu braço. Impressionante como a sensação de frio pode ser apenas um estado mental. Entretanto, por menos que o frio fosse uma realidade objetiva, naquela hora fazia frio e tivemos que andar rápido. O que acabou encurtando ainda mais a nossa caminhada. Não conversamos quase nada. Paramos na porta do hotel de Maria. - Tu já vai amanhã, né? - Isso. E você só na segunda. Né? - Hum rum. Ah! Me passa teus contatos em Recife. Vamo fazer alguma coisa lá depois que eu voltar. - Certamente a gente vai. Maria olhou novamente nos meus olhos e lançou um sorriso inescapável. Só me restava uma coisa: avançar e beijá-la. Fi-lo. E ela respondeu devidamente.